Voo Rasante

domingo, março 05, 2006

DONA ALFA QUEM DIRIA.... ACABOU NA VILA MIMOSA



Por Jason Vogel

Damas do high society nas décadas de 70 e 80, elas hoje moram embaixo da ponte. Ou melhor: sob o viaduto ferroviário da Rua Ceará, no acesso à Vila Mimosa, famosa zona do baixo meretrício. É ali que funciona a oficina dos irmãos Carlinhos e Bombom, derradeiro amparo mecânico para as velhas Alfa Romeo nacionais.
O território é demarcado por tristes carcaças que servem como doadoras de peças. Há apenas 20 anos, estas Alfa eram o que havia de mais caro e sofisticado no Brasil - coisa de ministro para cima. Mas, em 1986, a Fiat interrompeu a produção das Alfa no país e começou a decadência. Revendidas a quem não tinha como bancar a cara manutenção, as Alfa nacionais deixaram as concessionárias e passaram a freqüentar oficinas mais acostumadas a lidar com Fuscas. Não dava certo e a refinada mecânica reclamava. A lataria propensa à ferrugem e o consumo de 6km/l também não ajudavam. Assim, a cotação no mercado de usados foi desabando. - “Queria me livrar do entrave e acabei dando o carro todo podre. Valia tão pouco que nem tentei vender “- conta Gustavo Lopes, ex-proprietário de uma Alfa 2300 B, ano 77. Mesmo quem era especializado nos carros da marca perdeu o gosto: - Não compensa mais. De velho basta eu - diz Renato de Oliveira, da oficina Transmotores, que trabalhava só com Alfa. Poucos continuam fiéis às velhas Alfa, máquinas com manhas e melindres Conta-se nos dedos quem permaneceu fiel aos carros de jeitão italiano nascidos na fábrica de Xerém, pé da serra de Petrópolis. São apaixonados como Avelino Ferreira, que, nos anos 70, era um comerciante próspero o suficiente para comprar uma Alfa Romeo zero-quilômetro. - Perdi tudo, menos o amor pelas Alfa - conta Avelino, que também não perdeu a simpatia e hoje vende frutas, bolos e eletrodomésticos usados em uma barraquinha no Méier. Perto dos tabuleiros, uma carcomida Alfa 1974 serve como depósito móvel para as mercadorias. Outro carro da marca, ano 1983, é o atual meio de transporte de Avelino. Para esses entusiastas renitentes, a modesta oficina na Rua Ceará, Praça da Bandeira, tornou-se um bastião de resistência. Os mecânicos Carlos e Nivaldo Pereira da Silva, conhecidos como Carlinhos e Bombom, começaram a aprender as idiossincrasias das Alfas com outro irmão, que trabalhava numa concessionária da marca. Para alfista de fé, carro é um substantivo feminino As temperamentais Alfa - tratadas assim mesmo, no feminino, como fazem os admiradores ao se referirem à macchina - são cheias de melindres. - Para quem não conhece estes carros, é duro acertar os dois carburadores horizontais. A embreagem com acionamento hidráulico e até a troca de uma junta do cabeçote têm macetes - lista Carlinhos. E não é em qualquer lugar que se encontra peças. Daí os especialistas da Rua Ceará caçarem derrubadas Alfa nos subúrbios e na baixada (preços de R$ 500 a R$ 1.000), para retirar componentes. O que sobra vai para a reciclagem. Há futuro para estas velhas senhoras? Se depender do publicitário Carlos Eduardo Maia, pelo menos uma Alfa Romeo nacional rodará para sempre: - Esse carro era do meu avô e foi o primeiro automóvel que dirigi - diz ao volante de uma Alfa 2300 B, ano 1977. Um detalhe: Carlos Eduardo é quatro anos mais novo que sua querida Alfa. O homem que tem o ‘cuore’ no peito Alfredo Migani é a memória viva da Alfa Romeo no Rio. Talvez não haja na cidade alguém que conheça e ame tanto a marca. Em 1959, ele saiu de Roma e veio para o Rio, junto com um tio, especialmente para abrir a Vittori. Era uma concessionária da Fábrica Nacional de Motores, a estatal que produzia, em Xerém, caminhões sob licença da Alfa Romeo. A partir daí, a história de Migani, passa a se confundir com a da Alfa Romeo no país. Além dos parrudos “Fenemês”, foi decidido que a estatal faria também sedãs de luxo. Assim, em 1960, nascia o FNM JK (nome em homenagem ao então presidente Juscelino Kubitschek). Era uma versão nacional da Alfa Romeo Berlina 2000. O FNM JK estava anos-luz à frente do que havia na nascente indústria brasileira: tinha duplo comando de válvulas no cabeçote, câmbio todo sincronizado e com cinco marchas, conta-giros e pneus radiais. - Eram caros pra burro. Só ministros e militares de alta patente podiam comprar - lembra Migani, que fazia a assistência técnica no Rio e levava peças de avião para Brasília. - A produção era pequena e tinha gente que esperava seis meses para receber o carro - diz o alfista. Veio o golpe de 64, e Juscelino foi cassado. Mudaram o nome do carro para FNM 2000 (que depois virou FNM 2150). Em 1968, a FNM deixou de ser estatal e seu controle acionário foi assumido pela Alfa Romeo italiana. Novidade maior, só em 1974: sobre o monobloco do JK, foi criada a Alfa 2300, modelo sofisticado para quem queria algo mais europeu que os enormes Ford Landau. Feito apenas no Brasil, a Alfa Romeo 2300 foi o primeiro carro nacional com freios a disco nas quatro rodas e ajuste de altura do volante. A lista de qualidades incluía a robusta suspensão e um excelente ar-condicionado. Em 1977, chegou a Alfa 2300 B (com modificações internas e externas) e a partir daí, viriam versões ainda mais luxuosas: ti e ti4. Em todos, a corrosão grassava. Em 1978, a Alfa Romeo do Brasil foi comprada pela Fiat - a linha de Xerém mudou-se para Betim. O carro foi envelhecendo e a produção no país foi encerrada em 1986. Na época, um Alfa custava o equivalente a dois Santana. Migani vendeu sua concessionária em 1997. - Quem trabalhava com Alfa, trabalhava com prazer, com alma - afirma o italiano, que hoje atende só a amigos. Desde 1991, a Fiat traz da Itália novos modelos da Alfa. No ano passado 2002, foram vendidos apenas 186 carros. Obs: Para complementar este artigo, a situação hoje para as Alfas Brasileiras, está mudando rapidamente, isto por causa da comunidade http://www.alfaromeobr.com.br,/ que tem o seu Squadrão Salva Alfas, assim carinhosamente batizado, o grupo de pessoas que já salvou vários Alfas 2300. No período de 2003 a 2005 destes carros foram salvos e restaurados, e que nos encontros elas são presença certa.
Hoje boa parte dos amantes de Alfa Romeo, e que possuem Alfas mais novos, já despertaram o interesse em ter uma Alfa mais antiga em sua garagem, que se tornou o hobby destas pessoas. Um bom exemplo dessa tendência, foi o evento ocorrido em Brasília em agosto de 2005, chamado Carro do Brasil, onde foi homenageado a FNM/Alfa Romeo, e vários modelos 2300 estiveram expostos, mostrando que finalmente os colecionadores acordaram para uma realidade. A valorização acabou sendo uma conseqüência deste trabalho de conscientização feito por este grupo de pessoas, que sabem mostrar o devido valor do carro que foi o mais moderno do Brasil. O artigo acima, que por sinal foi muito bem escrito, foi publicado no jornal OGLOBO em 2003.

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